Síndrome de Cushing em cães como identificar e tratar a tempo
A síndrome de Cushing em cães, também conhecida como hiperadrenocorticismo, é uma das endocrinopatias mais comuns em pacientes caninos, caracterizada pela produção excessiva de cortisol, um hormônio vital que, em níveis elevados, provoca múltiplas alterações metabólicas e clínicas. O conhecimento aprofundado sobre essa síndrome é essencial para veterinários e tutores preocupados com o manejo eficaz de doenças complexas como diabetes mellitus, hipotireoidismo, hipertireoidismo, e outras afecções hormonais que frequentemente compartilhando sinais clínicos semelhantes. Reconhecer a síndrome de Cushing não apenas facilita o diagnóstico diferencial em casos de poliúria, polidipsia, alopecia endócrina e alterações metabólicas, como também permite um tratamento direcionado, melhorando significativamente a qualidade de vida dos pacientes e prevenindo complicações como crise addisoniana ou descompensação metabólica severa.
Antes de aprofundarmos na síndrome de Cushing, é importante ressaltar que muitos sintomas observados em cães com diabetes mellitus, como poliúria e polidipsia, também aparecem em hiperadrenocorticismo, dificultando o diagnóstico sem uma avaliação endócrina detalhada e exames laboratoriais específicos, como o teste de estimulação com ACTH e o teste de supressão com dexametasona em baixa dose. Assim, o diagnóstico correto é crucial para evitar tratamentos inadequados que podem agravar o quadro clínico e levar a piora do controle glicêmico em pacientes diabéticos, além de complicações associadas ao hipotireoidismo ou hipertireoidismo coexistentes.
Fisiopatologia da Síndrome de Cushing em Cães
O hiperadrenocorticismo resulta da secreção excessiva e crônica de cortisol pelas glândulas adrenais. O cortisol, secretado pelas porções fasciculada do córtex adrenal, é um glicocorticóide essencial para o metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios, além de participar da resposta ao estresse e do equilíbrio hídrico. Na síndrome de Cushing, essa homeostase hormonal está comprometida, causando efeitos catabólicos e desregulação metabólica.
Tipos de Síndrome de Cushing
O hiperadrenocorticismo pode ser dividido etiologicamente em duas formas principais:
- Hiperadrenocorticismo dependente de ACTH: causada pela produção excessiva de ACTH pela hipófise anterior, geralmente por um adenoma hipofisário. Este é o tipo mais comum, representando aproximadamente 80% dos casos.
- Hiperadrenocorticismo independente de ACTH: devido a tumores adrenais produtores de cortisol (adenomas ou adenocarcinomas), responsável por cerca de 15-20% dos casos.
Um terceiro tipo, menos frequente, inclui formas iatrogênicas causadas pelo uso prolongado de glucocorticóides, que devem ser diferentemente manejadas para evitar crises endócrinas.
Efeitos Sistêmicos do Cortisol Elevado

A superprodução crônica de cortisol consegue gerar:
- Gliconeogênese e resistência à insulina: contribuindo para exacerbação ou desenvolvimento de diabetes mellitus, manifestações de hiperglicemia, e até episódios de cetose e acidose metabólica (cetoacidose diabética).
- Proteinólise e catabolismo muscular: causando fraqueza muscular generalizada e atrofia.
- Distribuição anormal de gordura corporal: levando à obesidade abdominal característica e possível acúmulo em regiões específicas, como face e pescoço.
- Alterações cutâneas: alopecia endócrina simétrica, pele fina e escurecida, susceptibilidade a infecções secundárias.
- Efeitos sobre o sistema imunológico: imunossupressão, aumentando risco de infecções oportunistas.
- Alterações no equilíbrio hídrico: poliúria e polidipsia devido à ação mineralocorticoide e hiperglicemia.
Esta série de efeitos multifacetados torna essencial um manejo clínico cuidadoso e monitoramento especializado, particularmente em pacientes que apresentem comorbidades como diabetes mellitus, hipotireoidismo ou hipertireoidismo, visto que a descompensação endocrinológica pode agravar todos os quadros.
Diagnóstico da Síndrome de Cushing em Cães
O diagnóstico do hiperadrenocorticismo apresenta desafios significativos pois muitos sinais clínicos são inespecíficos e podem se sobrepor a outras doenças endócrinas. Por isso, o uso combinado de ferramentas clínicas, laboratoriais e de imagem é crucial para precisão diagnóstica e escolha terapêutica correta.
Análise Clínica e Exame Físico
A avaliação clínica deve incluir histórico detalhado, com ênfase em sintomas como poliúria, polidipsia, polifagia, distensão abdominal, fraqueza muscular e alterações dermatológicas (alopecia, hiperqueratose). A presença de hipertensão arterial, catarata diabética associada ou neuropatia periférica podem indicar doenças endócrinas múltiplas, levando à investigação aprofundada.
Exames Laboratoriais Essenciais
- Exame de sangue: Hemograma e bioquímica para avaliar sinais inespecíficos como leucocitose neutrofílica, hiperglicemia, hiperlipidemia e aumento da alanina aminotransferase (ALT).
- Teste de estimulação com ACTH: O exame mede o cortisol pós-ACTH, sendo um dos padrões-ouro para confirmar hiperadrenocorticismo. É especialmente útil para diferenciar entre formas iatrogênicas e espontâneas.
- Teste de supressão com dexametasona em baixa dose: Avalia a resposta da produção de cortisol à dexametasona, ajudando na distinção entre hiperadrenocorticismo dependente ou independente de ACTH.
- Painel tireoidiano: Incluindo T4 total, T4 livre e TSH, para descartar hipotireoidismo ou hipertireoidismo, frequentes em cães de meia-idade e idosos, que podem apresentar sintomas sobrepostos.
- Dosagem de fructosamina: Avalia controle glicêmico em pacientes com diabetes mellitus concomitante, fundamental para ajustar glicemia e evitar episódios de hipoglicemia ou cetoacidose.
Imagem Diagnóstica
A ultrassonografia abdominal, especialmente o adrenal ultrasound, permite identificar alterações estruturais nas glândulas adrenais, como hiperplasia ou tumores, auxiliando na diferenciação entre formas hipofisárias e adrenais da síndrome.
Em centros especializados e sob regulamentação do CRMV-SP, a realização de exames avançados, como tomografia computadorizada e cintilografia tireoidiana, pode ser recomendada para tempestiva detecção de adenomas hipofisários, nódulos tireoidianos, e tumores adrenais, alinhando diagnóstico e prognóstico com maior precisão.
Correlação da Síndrome de Cushing com Outras Doenças Endócrinas
A complexidade do quadro clínico de cães afetados pela síndrome de Cushing é ampliada pela possível coexistência com outras patologias endócrinas que envolvem o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, além das glândulas tireoides e pancreáticas, exigindo uma abordagem diagnóstica integrada.
Diabetes Mellitus e Controle Glicêmico
O hiperadrenocorticismo é uma causa secundária importante de diabetes mellitus em cães, devido à indução da resistência insulínica pelo excesso de cortisol. A presença concomitante dessas duas doenças agrava o quadro clínico, podendo levar a cetoacidose diabética e neuropatia diabética. O manejo inclui o uso rigoroso de insulina, acompanhado do monitoramento da curva de glicemia e níveis séricos de fructosamina. O tratamento da síndrome de Cushing, geralmente com trilostane ou mitotano, pode melhorar a sensibilidade à insulina e facilitar o controle glicêmico, reduzindo doses insulinoterápicas e incidência de hipoglicemias.
Hipotireoidismo e Hipertireoidismo em cães
A presença de alterações tireoidianas, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo, pode mascarar ou exacerbar sintomas da síndrome de Cushing. A avaliação tireoidiana detalhada com os testes de T4 total, T4 livre e TSH, além de exames imagem, se necessários, é fundamental. Pacientes demonstram queixas semelhantes, como alopecia, alterações no comportamento alimentar e no peso corporal, neto importante no diagnóstico diferencial. O uso de levotiroxina no hipotireoidismo e de metimazol no hipertireoidismo deve ser feito com monitoramento estrito, respeitando orientações do CRMV-SP e especialização recomendada pelo CBEV.
Outros Tumores Endócrinos
Doenças que envolvem tumores endócrinos, como insulinoma, feocromocitoma e acromegalia, podem ser confundidas com a síndrome de Cushing ou coexistir. Especificamente, o insulinoma provoca hipoglicemia episódica, requerendo curva de insulina para diagnóstico, enquanto feocromocitomas podem causar hipertensão grave e crises hipertensivas. Acromegalia, relacionada a adenomas hipofisários, pode ocorrer junto com hiperadrenocorticismo, necessitando avaliação detalhada do eixo hipofisário. A abordagem multidisciplinar incluindo endocrinologistas veterinários registrados no CRMV-SP é imprescindível para intervenções precisas.
Opções Terapêuticas e Manejo Clínico
O tratamento da síndrome de Cushing objetiva restaurar os níveis normais de cortisol, aliviar sintomas clínicos e melhorar o bem-estar do paciente, minimizando riscos de complicações sérias, como crise addisoniana e descompensações hiperglicêmicas em diabéticos. O manejo requer uma abordagem individualizada, indexando exames laboratoriais periódicos, ajuste terapêutico e acompanhamento clínico rigoroso.
Medicamentos Inibidores da Síntese de Cortisol
Trilostane é o fármaco mais empregado no tratamento, atuando como um inibidor da enzima 3-beta-hidroxiesteroide desidrogenase, bloqueando a síntese do cortisol. A dose deve ser ajustada conforme respostas clínicas e laboratoriais, com monitoramento regular dos níveis de cortisol pós-ACTH. Mitotano, um agente adrenolítico, também pode ser utilizado, porém requer cuidados com efeitos colaterais e risco de insuficiência adrenal.
Cirurgia e Radioterapia
Em casos de tumores adrenais unilaterais ou macroadenomas hipofisários, a adrenalectomia ou a ressecção cirúrgica do tumor hipofisário pode ser indicada, desde que haja indicação precisa e infraestrutura adequada com especialistas veterinários registrados e certificados pelo CRMV-SP e CBEV. Radioterapia pode ser aplicada em macroadenomas hipofisários, especialmente quando a cirurgia é inviável, visando controlar a produção hormonal e sintomas neurológicos associados.
Cuidados Comorbidades e Monitoramento
O manejo simultâneo de diabetes mellitus, hipotireoidismo e outras doenças deve ser articulado, ajustando doses de insulina com base em curvas glicêmicas, monitorando função tireoidiana periodicamente, e evitando interações medicamentosas que possam agravar a situação endócrina. O acompanhamento clínico frequente evita crises adrenal ou tiroideana, além de permitir ajustes rápidos na terapia.
Prognóstico, Prevenção e Impacto na Qualidade de Vida
O controle efetivo da síndrome de Cushing possibilita a manutenção de uma vida ativa e saudável em cães, prevenindo a progressão de complicações graves como nefropatias, cataratas diabéticas, neuropatias e infecções secundárias. O prognóstico depende do início precoce do diagnóstico, adesão ao tratamento, e avaliação ultrassom de adrenais pet por equipe veterinária especializada.
A educação dos tutores é parte fundamental para o sucesso terapêutico, esclarecendo sinais de alerta como apatia súbita, vômitos persistentes, diarreia intensa e colapso, que indicam emergências endócrinas, como crise addisoniana ou insuficiência adrenal aguda, necessitando atendimento imediato.
Conclusão e Passos Ações Imediatos
Se você suspeita que seu cão apresenta sintomas compatíveis com síndrome de Cushing, como poliúria, polidipsia, perda ou alteração do pelo, distensão abdominal e fraqueza muscular, agende uma consulta endocrinológica especializada. Solicite ao seu veterinário os exames laboratoriais de teste de estimulação com ACTH, teste de supressão com dexametasona em baixa dose, painel tireoidiano com T4 livre e TSH, além da ultrassonografia adrenal. Em casos com diabetes mellitus concomitante, monitore o controle da glicemia e nutracêuticos indicados, utilizando a dosagem de fructosamina para guia terapêutica. Inicie o tratamento com inibidores da síntese de cortisol, como trilostane, sob rigoroso controle veterinário e nunca suspenda medicação sem orientação profissional. Se observar sinais de emergência endócrina, como crises convulsivas, vômitos persistentes e colapso súbito, procure atendimento veterinário de urgência imediatamente. O acompanhamento contínuo por veterinário especializado com registro CRMV e experiência em endocrinologia garante a melhor qualidade de vida para seu pet através de manejo integrado e baseado em evidências clínicas atuais e protocolos recomendados pelo CBEV e ANCLIVEPA-SP.